A Constituição Brasileira, promulgada em 05/10/1988, é uma lei anacrônica, esdrúxula, imprópria para uma carta-magna, remendada para atender interesses do Poder e repleta de benevolências, privilégios e direitos sem deveres, obrigações ou contrapartidas . Fomenta centralização da justiça no STF, insegurança jurídica, morosidade da justiça, estado policial , ausência de civismo, desigualdades, desarmonia nos Poderes, centralização dos impostos na União, desordem pública e insegurança social. Jorge Bengochea

terça-feira, 5 de novembro de 2013

O AMANHÃ DA CONSTITUIÇÃO



JORNAL DO COMERCIO 05/11/2013


Antonio Augusto d’Avila


O texto constitucional está repleto de belos direitos, porém, por si só eles não bastam, há grande distância entre o céu dos ideais e a rude matéria. Assim, várias conquistas sociais podem ser anuladas, de fato, por governos obesos, perdulários e ineficientes que utilizam vários eufemismos para justificar sua conduta liberal (com dinheiro alheio), mas provocam uma combinação variável, mas infalível: carga tributária extorsiva, inflação e dívidas. As duas primeiras, como regra, atingem os atuais cidadãos-contribuintes que podem lutar, protestar e até remover os dirigentes (ir)responsáveis. A terceira, em geral, atinge os que virão.

Em relação a esses, ao contrário, a Constituição é muito pobre. Afora as disposições sobre o meio-ambiente, muito pouco há. Pior, das poucas, a do art. 167 é quase desconhecida quanto ao seu alcance e, muitas vezes, é pisoteada pelos governantes. Em termos simples, ela proíbe que as chamadas despesas de custeio, tais como pessoal, diárias, viagens, festas, eventos, publicidade, material de consumo, manutenção de veículos etc, sempre infladas pelos desvios e desperdícios, sejam encobertas por empréstimos, ou seja, sejam jogadas nos ombros das futuras gerações. Com razão, além de injusta, essa prática é, no mínimo, covarde, pois, hoje elas não podem protestar e amanhã, quando puderem, a exemplo do RS atual, nada mais poderá ser feito, a não ser clamar e reclamar aos céus, como se a impagável dívida de lá tivesse caído.

Economista

terça-feira, 29 de outubro de 2013

SARNEY TÃO IMPORTANTE QUANTO ULISSES PARA A CONSTITUIÇÃO

FOLHA.COM 29/10/2013 - 14h25

Lula homenageia Sarney e diz que ele foi tão importante quanto Ulysses para a Constituição

GABRIELA GUERREIRO
RANIER BRAGON
DE BRASÍLIA


Em ato de comemoração aos 25 anos da Constituição de 1988, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva fez nesta terça-feira (29) uma homenagem pública ao também ex-presidente José Sarney (PMDB-AP), dizendo que o peemedebista foi tão importante quanto Ulysses Guimarães (1916-1992) no processo de formulação da atual Carta Magna brasileira.

No período da montagem e promulgação da Constituição, Sarney era o presidente da República, Ulysses o presidente da Câmara dos Deputados e Lula um dos constituintes pelo PT, na época, oposição ao governo.

"Eu queria fazer reconhecimento de público. Ulysses Guimarães certamente foi o símbolo dessa Constituinte, coordenou com maestria numa situação muito difícil, em que o PMDB tinha 23 governadores e 306 constituintes, e que sozinho podia fazer o que queria. Eu tenho consciência que o senhor não teve facilidade, muito menos moleza. Quero colocar a sua presença na Presidência no período da Constituinte em igualdade de condições com o companheiro Ulysses Guimarães", discursou Lula no plenário do Senado.

Segundo o petista, o principal mérito de Sarney foi permitir que os constituintes fizessem livremente críticas a ele.

"Em nenhum momento, mesmo quando era afrontado no Congresso, o senhor levantou um único dedo, uma só palavra para criar qualquer dificuldades aos trabalhos da Constituinte, que certamente foi o trabalho mais extraordinário que o Congresso já viveu. (...) Por isso presidente Sarney, já que Ulysses não está entre nós, eu quero dizer claramente que o senhor merece a minha homenagem como comportamento digno como presidente da República, de permitir que nós disséssemos aqui dentro todos os desaforos que achávamos que tínhamos direito de falar contra o senhor", acrescentou Lula, se dirigindo a Sarney, que falara antes dele.
Pedro Ladeira/Folhapress

Ao lado do presidente do Senado, Renan Calheiros, o ex-presidente Lula recebe medalha em comemoração aos 25 anos da Carta


Apesar de o PT ter feito oposição ao governo Sarney e até hoje integrantes da legenda atacarem sua atuação política, Lula e o maranhense patrocinaram uma aliança que perdura até hoje após o petista chegar ao poder, em 2003. Em sua fala, Lula também exaltou as políticas sociais do governo Dilma Rousseff e voltou a criticar aqueles que negam a política, dizendo que se os jovens e a imprensa tivessem lido biografias de presidentes como Getúlio Vargas e Juscelino Kubitschek eles saberiam que a "avacalhação" de políticos e da política resulta em ditadura.

"Na história desse país, se a juventude lesse a biografia do Getúlio, Juscelino e outras biografias, possivelmente as pessoas não iriam desprezar a política e muito menos a imprensa não ia avacalhar a política como avacalha hoje. (...) O que aparece quando se nega a política, é uma pessoa praticando ditadura, praticando políticas que não condizem com aquilo que nós acreditamos", afirmou.

As referências que Lula têm feito sobre a negação da política têm como alvo os protestos de rua contrário aos partidos políticos e o discurso defendido pela ex-senadora Marina Silva, para quem é preciso acabar com o atual modo de se fazer política no país. Em sua fala, Lula não fez menção à sua declaração de 1993, cinco anos após a promulgação da Constituição, segundo a qual havia "300 picaretas" no Congresso.

Também participaram do ato no Senado o vice-presidente da República, Michel Temer (PMDB), os presidentes do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), da Câmara, Henrique Eduardo Alves (PMDB-RN), e outros políticos que participaram da Constituinte. O hino nacional foi cantado por Fafá de Belém, tratada como "musa" da campanha das Diretas-Já.

Convidados, os ex-presidentes Fernando Collor de Mello (1990-1992) e Fernando Henrique Cardoso (1995-2002) não compareceram. O tucano afirmou aos organizadores que não iria devido a uma diverticulite. Não houve justificativa, durante o evento, para a ausência de Collor.

UM CONTO DE DUAS CIDADES


O Estado de S.Paulo, 29 de outubro de 2013 | 2h 06

Lembrando Dickens: um conto de duas cidades
Oliveiros S. Ferreira*



Charles Dickens escreveu Um Conto de Duas Cidades. Uma, Londres: o rei, o Parlamento, a "leal oposição de Sua Majestade". Outra, Paris. Nela, o Terror jacobino, o Tribunal de Salvação Pública, a guilhotina. E um Robespierre lógico: "O rei não deve ser julgado; se for julgado, pode ser absolvido".

Imaginei como servir-me da ideia esboçando duas cidades no Brasil atual. Uma, a da Constituição, acolhendo os que defendem as liberdades individuais e, agora, coletivas; a das instituições contra o assalto não dos aristocratas, mas dos que são supostos a sonhar com um regime autoritário. Outra, menor que a primeira, mas nela se abrigando e ostentando em volta dos carros incendiados a bandeira negra da anarquia. Encapuçados e mascarados passeiam pelas ruas à busca de símbolos daquilo contra o que estão, para destruí-los. Alguns poucos deles terão memória de que, depois da guilhotina, houve as baionetas de Napoleão, cujo triunfo deixou um grande vazio demográfico na França.

As muralhas da cidade da Constituição são extensas como a da China e na guarda de seus muros se impõe caminhada tão longa e tão penosa que o cansaço perturba a mente dos que se dispõem a defendê-las. O sol das liberdades faz que vejam miragens e se imaginem Pimpinela Escarlate - herói romântico - que salvará não o rei preso nas masmorras, mas Marianne, símbolo da República, que corre o risco de ser de novo violada. Vivem e mourejam pelos símbolos de uma cidade que já não tem bandeira que a todos abrace. Os camuflados incógnitos erguem a da anarquia, fazendo da Constituição sua defesa e do molotov sua arma. O cidadão, que a Constituição prometeu acolher em seus braços, já não existe como ser real. Está sangrando.

Isso tudo são meras reflexões literárias que mal conseguem descrever cenas reais. Não conseguem porque, de tanto ouvir dizer que nos devemos unir numa "comunidade latino-americana", vivemos um universo fantástico, em que tudo é simbólico.

O Tribunal de Contas da União determina que funcionários do Senado devolvam o que receberam contrariamente ao que a Lei dispõe. Em sua defesa, estes alegam ter recebido de "boa-fé". Quem autorizou pagar também agiu de boa-fé - fundamento dos atos administrativos. A Lei e a decisão do órgão que zela por ela são símbolos da República com que sonhamos. Nada mais - pois todos agimos de boa-fé, símbolo de nossa inocência e de nossa cidadania.

O reitor da USP desce de sua magnificência e pede à Justiça que lhe devolva o prédio onde deve trabalhar, prédio público ocupado durante greve que, tudo indica, também é simbólica. Sim, porque a Reitoria não poderá alterar o critério da lista tríplice para a escolha do reitor. A Justiça nega ao reitor o direito de trabalhar no próprio que é do Estado porque a reintegração de posse com certeza implicará violência, que não é simbólica, mas real. Ademais, a greve é manifestação prevista na Constituição e para resolvê-la, que se negocie. Apesar de tudo, é preciso que a Justiça seja respeitada, porque é ela que defende os valores maiores, para cuja defesa se fez a "Cidadã". Então, os alunos que desocupem o prédio, espontaneamente, em 60 dias. Afinal, o prédio da Reitoria é propriedade do Estado - perdão, da USP, que é autônoma! -, portanto, simbolicamente, é de todos os professores, alunos e funcionários, portanto, é de ninguém. Se é de ninguém, a propriedade dele é um símbolo. Respeitemo-lo.

Sem máscara - para quê? - podemos destruir um laboratório de pesquisa e levar conosco centenas de animais. Para a polícia, houve furto - a invasão e a destruição são danos colaterais. Simbólicos, pois.

Tudo se passa num universo fantástico e, por isso mesmo, simbólico. Tudo é simbólico e fantástico ("ilusório, irreal, fantasmagórico, caprichoso e também simulado, inventado" como se lê no Aurélio) porque a política é simbólica. O "partido" Rede não conseguiu ser ente política e juridicamente real. Sua líder e a cúpula do PSB reúnem a imprensa para comunicar alguma coisa. Marina diz para todos: "É uma filiação simbólica". E, ato contínuo, assina a ficha que lhe permite ser membro do PSB e, se possível, candidata a qualquer coisa em 2014. Foi uma assinatura simbólica - "caprichosa" ou "inventada"? Foi simbólica para salvar a face, mas real para poder impor, ao partido legal e real, alguns aliados e recusar outros.

Se o que é real se transformou em simbólico, o que era simbólico se transformou em real porque assim alguém quis - e assim a cidade da Constituição de fato reconheceu, como direito inalienável de qualquer cidadão, um agir simbolicamente. Não é o que fazem os mascarados?

A Paris que Dickens retratou não nasceu do nada, não veio como um raio no céu azul. Robespierre elegeu-se para os Estados Gerais como um pacato advogado. As circunstâncias fizeram dele o guardião da virtude, o inimigo da Justiça e o defensor da guilhotina. Os guardiões das muralhas da cidade da Constituição semearam há tempos, fantasticamente, está claro, as sementes das máscaras. Semearam o mal quando os "atrasos da Justiça" não puniram os que destruíram plantações experimentais; quando amigos do rei invadiram o Congresso Nacional, depredando-o; quando a escola ficou vazia de professores.

O assalto à ordem não oferece riscos porque a anarquia tem os defensores das muralhas da cidade da Constituição como seus porta-estandartes.

Dickens não falou da cidade que sucedeu à de Robespierre. Seria bom nos lembrarmos de que Beethoven reescreveu a dedicatória da 3.ª sinfonia ao saber que Napoleão, o revolucionário, se proclamara imperador. Não impediu que seu 5.º concerto fosse conhecido como "Imperador" porque um granadeiro de Napoleão, ouvindo-o, saudou-o aos gritos de "viva o imperador".



*Oliveiros S. Ferreira é professor da USP e da PUC-SP e membro do Gabinete e Oficina de Livre Pensamento Estratégico. Site: www.oliveiros.com.br

sábado, 12 de outubro de 2013

POLÍTICAS PUBLICAS MUITAS VEZES TRAEM OS PROPÓSITOS DA CARTA


Análise: Políticas públicas muitas vezes traem os propósitos da Carta


LEVA LAVINAS
ESPECIAL PARA A FOLHA



Foi na primavera, 25 anos atrás. Promulgada a nova Constituição, lê-se no seu artigo 6º que "são direitos sociais a educação, a saúde, o trabalho, o lazer, a segurança, a previdência social, a proteção à maternidade e à infância, a assistência aos desamparados".

Prover, proteger, amparar, prevenir contra riscos e incertezas: o essencial nos foi enfim reconhecido, extensivo a todos sem senões, mulheres e homens, rurais e urbanos, negros, pardos, indígenas ou brancos.

A uniformidade e a equivalência nos benefícios e nos serviços, a universalidade da cobertura e do atendimento e a irredutibilidade nas garantias constitucionais conformaram a identidade de condições que nos faltava para juntos forjarmos uma sociedade igualitária, mais homogênea, mais justa e também, em consequência, mais eficiente.

Assegurados valores e princípios, o desafio dos últimos 25 anos consiste em dispor de mecanismos regulatórios e normas que garantam, de forma reiterada e permanente, cumulativa, essa identidade de condições entre todos os cidadãos. Tecer laços sociais fortes, reciprocidades, que nos recordem, a cada experiência compartilhada, que nos relacionar como iguais é o que há de nos construir como nação.

Editoria de Arte/Folhapress



Afinal, nosso nacionalismo arraigado e reconhecido internacionalmente como vantagem haveria de contribuir para superar essa profunda desigualdade que nos aparta, munidos que estamos de preceitos constitucionais de equidade e justiça social.

Mas ela pouco se move, essa desigualdade. Houve um ligeiro recuo, promissor, é verdade, mas acanhado, resultado, sobretudo, do crescimento com emprego e da centralidade que a Carta Magna conferiu ao salário mínimo ao vinculá-lo a direitos e benefícios. E à norma que foi criada para indexá-lo promovendo redistribuição. Essa, uma boa norma.

Por que tantos tropeços, tantas frustrações nessa trajetória se a direção a seguir nos conforta?

Há quem julgue equivocadamente que tais tropeços se devem à falta de recursos para garantir aquilo que constitui o compromisso político público de construir uma sociedade de iguais.
Pressuposto falso. A engenharia do desenho do orçamento da seguridade social, por exemplo, foi uma belíssima inovação institucional, que gera receita para honrar benefícios previdenciários, assistenciais e prover saúde pública e universal. Toda a população brasileira contribui, e os mais pobres, com maior esforço.

Com crescimento e formalidade, o orçamento da seguridade é não apenas superavitário, mas engorda o orçamento fiscal com dezenas de bilhões anualmente. Só em 2012, foram desviados R$ 58 bilhões que poderiam universalizar a provisão da atenção básica, que hoje atende --e mal-- a só 50% da população.

Porém, em lugar de expandir a atenção básica, crescentemente nas mãos do mercado privado de saúde, que funciona na restrição da oferta de serviços, impondo o subconsumo e, portanto, perda de bem-estar, ouve-se de gestores públicos ser necessário "focalizar para universalizar"!

Definem-se "doenças da pobreza", como prioritárias no atendimento aos pobres, comprometendo o grande diferencial que tem o Brasil "vis-à-vis" outros países em desenvolvimento: um sistema único e universal de saúde, que não carece de recursos para funcionar satisfatoriamente, senão de uma gestão pública consequente e respeitosa de uma institucionalidade definida constitucionalmente. O setor público entroniza a regra do mercado e faz da renda o mecanismo de acesso à proteção em caso de contingência.

Da mesma maneira, a regulação à pobreza se faz na contramão do que reza a Constituição. Condicionalidades são exigidas dos reconhecidamente pobres, para que lhe seja garantido o que de direito. E se faz deles não iguais, tornando ilegítimo o direito derivado da necessidade.

A institucionalidade forte da nossa Constituição é permanentemente ameaçada por regras inadequadas e perniciosas que muitas vezes formatam a política pública e desfiguram seus propósitos.

A estrutura da governança econômica --expressão emprestada a Samuel Bowles-- explica distorções na rota da equidade. O problema não reside no traçado dos nossos sonhos, mas na forma como se faz a gestão da política pública, que atropela e invalida valores universais que elegemos como nossos.

O mercado se expande, cresce o consumo. Isso é bom? Certamente, mas insuficiente, pois a equidade padece. Ela não se mede pela incorporação ao mercado. É tempo --ainda e sempre-- de primaveras que façam florescer nossos ideais de igualdade, palpáveis, factíveis e constitucionalmente amparados.

LENA LAVINAS é professora do Instituto de Economia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).


25 ANOS E 112 TEMAS À ESPERA DE UMA LEI

FOLHA.COM 05/10/2013 - 03h00

Carta faz 25 anos com 112 temas à espera de uma lei


RICARDO MENDONÇA
DE SÃO PAULO



Vinte e cinco anos após sua promulgação, o arcabouço legal previsto na Constituição de 1988 continua incompleto. Um levantamento recente feito no Congresso identificou 112 leis mencionadas explicitamente no texto constitucional que deveriam ter sido criadas, mas até hoje não foram.

No meio jurídico, as normas inexistentes são conhecidas como "leis faltantes".

Entre elas estão as regulamentações para greve de servidores públicos, crime de terrorismo, licença paternidade, produção regional para rádio e TV, trabalho escravo e vacância de presidente da República e vice.

Presidida pelo deputado Cândido Vaccarezza (PT-SP), a comissão mista do Congresso sobre o tema pretende acelerar a aprovação dessas leis.

Até agora, três das 112 faltantes passaram pelo grupo. Aprovadas pelo plenário do Senado, estão agora paradas esperando a apreciação da Câmara."Estamos fazendo nossa parte", diz Vaccarezza. "Quero regulamentar [na comissão] no mínimo mais dez até o fim do ano".

Ainda que o cenário mais otimista da comissão se confirme, o total de leis faltantes no país pode até aumentar. A razão são as sucessivas emendas constitucionais aprovadas pelo próprio Congresso. Desde 1988, foram 80, número considerado alto por juristas e acadêmicos.





"Há muitas emendas que acrescentam novas exigências. Prometem leis que depois não são feitas", lembra Gilmar Mendes, ministro do Supremo Tribunal Federal.

Para o advogado Carlos Roberto Siqueira Castro, professor da UERJ (Universidade Estadual do Rio de Janeiro) e assessor da Assembleia Constituinte, a responsabilidade pelo acúmulo de leis faltantes deve ser dividida entre os congressistas de 1988, os que vieram depois e o próprio STF.

"Vi isso várias vezes [em 1988]. Quando não se chegava a algum consenso, o constituinte remetia para futura regulamentação, empurrava com a barriga. Essa solução ajudou a avançar nos trabalhos, é verdade. Mas acho que houve um pouco de abuso."

Castro diz que o Congresso não cumpriu com seu dever posteriormente. E atribui parte da culpa ao STF por não ter dado "eficácia" ao chamado mandado de injunção, instrumento legal previsto na própria Constituição para pedir regulamentação de algo que não foi regulamentado.

"Provocado, o STF só notificava o Congresso. Se tivessem entendido que mandado de injunção é uma garantia concreta e agido ativamente, duvido que o Congresso iria demorar tanto para legislar", afirma o constitucionalista.

ARTIGOS VIRARAM INCISOS PARA DIMINUIR A CARTA

FOLHA.COM 10/10/2013 - 03h29

Ex-ministro Nelson Jobim afirma que artigos viraram incisos para 'diminuir' a Carta


RICARDO MENDONÇA
DE SÃO PAULO

Em debate sobre os 25 anos da Constituição realizado anteontem naFolha, o ex-ministro Nelson Jobim descreveu uma solução curiosa adotada pelos constituintes para aplacar os comentaristas que, já em 1988, criticavam o tamanho do texto constitucional.

"Quando se falou que a Constituição era enorme, que tinha 500 artigos, o que fizemos? Transformamos os artigos em parágrafos. No artigo 5º, aqueles incisos todos e parágrafos eram textos autônomos. Aí se reduziu e isso satisfez os críticos", disse.

Jobim, que participou da elaboração da Carta como deputado pelo PMDB, lembrou que a Constituição nasceu grande porque teve muita participação popular, mas também porque, segundo ele, era mais fácil aprovar um texto constitucional do que uma lei.


Bruno Poletti/Folhapress

Nelson Jobim, Uirá Machado, Luís Roberto Barroso e Virgílio Afonso da Silva durante debate sobre os 25 anos da Constituição


"A lei precisa passar pela Câmara, Senado, pelo Executivo, veto e rejeição do veto", disse. "Era mais fácil aprovar o texto constitucional porque tinham duas votações em dois turnos num plenário só."

Em uma de suas intervenções, o ministro do STF Luís Roberto Barroso criticou o tamanho do texto constitucional, "prolixo, casuístico e corporativista", a quantidade de emendas --80 desde 1988-- e a "judicialização da política e das relações sociais".

Em relação ao tamanho e as 80 emendas, o constitucionalista Virgílio Afonso da Silva foi menos crítico. "Mudaram detalhes. Mas o cerne da Constituição continua o mesmo desde 1988", afirmou.

SISTEMA ELEITORAL BRASILEIRO É UM ENGODO

FOLHA.COM 10/10/2013 - 03h29

Barroso diz que sistema eleitoral brasileiro é 'um engodo'


RICARDO MENDONÇA
DE SÃO PAULO



Em debate sobre os 25 anos da Constituição promovido terça-feira (8) à noite pela Folha, o ministro do STF (Supremo Tribunal Federal) Luís Roberto Barroso classificou o modelo de eleição para deputados federais, estaduais e vereadores como "um engodo".

"Há uma ficção no Brasil de que o eleitor vota no seu candidato, quando menos de 10% dos eleitos são eleitos com votação própria", disse. "Os candidatos são eleitos com o quociente eleitoral. Mais de 90% dos membros da Câmara são eleitos sem votação própria."

Para exemplificar, ele citou o deputado Tiririca (PR-SP), o mais votado do país em 2010, com 1,3 milhão de votos.

"Quem deu um voto de protesto no Tiririca elegeu também Valdemar Costa Neto (PR) e Protógenes Queiroz (PC do B). Não estou fazendo juízo de valor [...]. Estou apenas dizendo que o voto no Tiririca era para ser talvez um voto de protesto que elegeu um político tradicional", afirmou. "Portanto, o voto proporcional em lista aberta acaba sendo um engodo", completou.

Na verdade, a votação de Tiririca em 2010 ajudou a eleger outros três da mesma coligação, mas não Valdemar. Além de Protógenes, foram beneficiados Otoniel Lima (PRB) e Vanderlei Siraque (PT).

Bruno Poletti/Folhapress

Nelson Jobim, Uirá Machado, Luís Roberto Barroso e Virgílio Afonso da Silva durante debate sobre os 25 anos da Constituição


Ainda sobre o tema, Barroso disse que o Brasil precisa "desesperadamente" de uma reforma política capaz de baratear as eleições, "raiz de boa parte dos problemas de corrupção", ajudar na formação de maiorias estáveis no Congresso e dar "autenticidade programática" aos partidos.

Segundo ele, "o cenário partidário brasileiro é devastado por legendas de aluguel que comprometem a dignidade da política".

O debate sobre a Constituição também contou com as presenças de Nelson Jobim, ex-ministro do STF, ex-ministro da Justiça e deputado constituinte, e Virgílio Afonso da Silva, professor de direito da USP. O mediador foi o jornalista Uirá Machado, editor de "Opinião" da Folha.

BALANÇO

Apesar de alguns reparos, eventuais críticas ao seu tamanho e ao número de emendas, o balanço dos debatedores a respeito dos 25 anos da Constituição é favorável.

Virgílio, que classificou o período como "francamente positivo", lembrou de uma frase dita pelo então presidente José Sarney, ainda durante a Assembleia Constituinte, segundo a qual o Brasil ficaria "ingovernável" com a nova Carta. "Ocorreu justamente o contrário. Há 25 anos de estabilidade democrática", disse.

Para ele, seria impossível agradar a todos ou agradar alguém por completo. "Mas quem conhece a história do Brasil e a história dos direitos não tem dúvida em afirmar que o saldo é positivo."
Como exemplo positivo da estabilidade, Nelson Jobim recorreu ao impeachment do ex-presidente Fernando Collor de Mello, em 1992, pouco tempo após a promulgação.

"O presidente era processado e o governo andou. Houve um acordo político para isso. Então as instituições funcionaram. Com conflitos, mas isso é evidente, pois sempre tem conflito", afirmou.

O ministro Barroso destacou a transição "bem sucedida" do regime autoritário para um Estado democrático de direito, a estabilidade institucional e o que chamou de "desenvolvimento de uma cultura democrática, de tolerância e respeito aos direitos fundamentais".